Escalar até partir – Parte 1

Escalar até partir é uma metáfora muitas vezes usada pelos escaladores… Hoje em dia o significado tornou-se real nalgumas vias de Portugal. Mas como chegámos a esta situação? Nesta primeira parte, contamos, ponto a ponto partido, como aqui chegámos e com a sorte de terem sido apenas os pernos a partir e não as pernas. Por isso pudemos dar os primeiros passos para resolver o problema, o que será contado numa segunda parte.

Há cerca de 10 anos atrás, ao rapelar para aceder à base da via “Inferno Roxo” na extraprumada Parede Grande, na Armação Nova, em Sagres, um escalador ficou com uma plaquete literalmente na mão.

A via era relativamente recente (menos de 10 anos) e equipada em aço inox, conforme se tinha tornado corrente na época, em detrimento do aço zincado que enferrujava e deixava assim de ser considerado seguro.

O que teria provocado esta quebra do perno? Pensou-se se num defeito de fabrico, ou num aperto em demasia, etc… A pergunta ficou por responder e a dúvida a pairar no ar.

Feliz ou infelizmente o panorama da escalada em Portugal é pequeno, a comunidade é pequena e as notícias correm rápido. Com o passar dos anos esse ponto que falhou em Sagres deixou de ser um ato isolado e começaram a aparecer relatos de outros casos iguais noutras falésias marítimas um pouco por todo o país.

Alguns escaladores/equipadores começaram a achar que algo estava errado e começaram a investigar. Já existia a noção que em ambientes tropicais isto acontecia e que usavam umas ancoragens em titânio muito caras para resolver o assunto. Mas aqui na Europa, que não é tropical, o caso deveria ser certamente diferente ou não? Um comunicado da UIAA do ano 2000 reportava já, vagamente, algumas falhas de pontos de ancoragem na Europa mas sobretudo debruçava-se sobre os casos tailandês e das ilhas Caimão. Tudo levava a supor que o tipo de corrosão que atacava, de forma tão rápida e tão catastrófica, os pontos de ancoragens só ocorria neste tipo de ambientes tropicais. Mas o facto é que aqui os pontos continuavam a falhar e já contávamos com não um, mas cerca de 8 casos. Por curiosidade começamos a tomar nota de todas estas falhas, a registar que marca e material tinha sido empregue, em que local, características desses locais e sempre que possível a recolher os pernos e plaquetes falhados.

Entrou-se em contato com os escaladores americanos que tinham resolvido o problema tailandês e estes asseguraram-nos que o mesmo iria certamente acontecer também no mediterrâneo e que a única solução seria equipar ou reequipar as vias em titânio, o único material imune a este problema. Mas isso seria uma tarefa gigantesca e muito dispendiosa pois se o inox já era caro o titânio custa o triplo, e o triplo de caro é caríssimo!

Uma reunião informal de escaladores na casa do João Gaspar/Teresa Leal, onde se passou um vídeo sobre o caso tailandês, foi o ponto de partida para a mudança de mentalidade/paradigma dos escaladores desinformados e os equipadores céticos. Assumiu-se que embora a escalada seja um desporto por natureza perigoso não se trata propriamente de roleta russa e que algo teria que ser feito.

Desta forma, e depois de mais um par de reuniões nasceu o Projeto Titã que se tem dedicado ao trabalho de reequipar as falésias marítimas com titânio. Lentamente temos vindo a fazer o levantamento das vias a reequipar, a angariar dinheiro, a informar os escaladores e obviamente a reequipar as referidas vias.

Paralelamente a este processo a UIAA tem uma comissão de segurança criada recentemente com o propósito de rever os standards da norma UIAA 123 no que diz respeito ao equipamento nas falésias marítimas. O seu objetivo é definir classes de ancoragens e classes de ambientes agressivos e propor standards a utilizar para as diversas classes de ancoragens a aplicar nos diferentes tipos de ambientes. Para tal será necessário conhecer os materiais que existem à disposição para equipar bem como os locais e suas características ambientais. Uma tarefa nada fácil de se levar a cabo, pois o assunto não está devidamente estudado e os factores a considerar são imensos e as suas variáveis quase exponenciais.

Há cerca de um ano fomos contactados por esta comissão pois estavam interessados em conhecer o trabalho que o Projeto Titã tem estado a desenvolver.

E o interesse no nosso caso foi muito grande porque ao contrário do resto do mundo, nós temos o nosso caso bem documentado. Sabe-se por exemplo que em outros locais têm falhado muitos pontos, mas não se sabe quantos, nem há quanto tempo tinham sido colocados, a que distância estavam do mar, de que tipo de material eram feitos, em que tipo de rocha, etc.

E por uma vez, no registo e descrição do catastrofismo, nós estamos à frente dos demais e temos os dados registados e guardadas as amostras dos pontos falhados de quase todas as falésias, desde Casal Pianos a Sagres e passando pelos Açores. Informação muito importante para fazer um estudo de caso pertinente.

A troca de informações e dados tem sido muito profícua ao longo deste ano e temos aprendido muito sobre o assunto. Há cerca de 6 meses enviámos para uma universidade de Praga um lote com 35 pontos de ancoragem falhados para análise. Os primeiros resultados chegam agora.

 

Texto de Rui Rosado

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